Jazz Dance: História em movimento (parte 1/3)

10 minutos para ler

Dividida em três grandes matérias sobre a história do Jazz Dance essa série apresenta as origens desta dança

Marcela Benvegnu | [email protected]

Sempre antes de uma palestra sobre história do jazz dance, eu me aproprio da frase Stuart Hall em “A identidade cultural na pós-modernidade” para que possamos começar a pensar sobre o assunto. E hoje o mesmo eu faço aqui: “A identidade é algo formado ao longo do tempo por meio de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento. Existe sempre algo imaginário ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre em processo, sempre sendo formada”. Assim eu te pergunto: O jazz dance morreu? Ele se transformou? Ele tem técnica? Antes de respondermos essas perguntas, vamos à história. Tudo isso irá fazer sentido quando você ler as outras duas matérias sobre jazz dance que estamos preparando para você.

Tanto a música, quanto a dança conhecida com o nome de jazz dance são resultado de uma fusão de relações que prosperaram nos territórios americanos a partir do século 18. Suas raízes estão, obviamente, na cultura negra e suas características mais marcantes e visíveis nas danças africanas, nas quais a manifestação não era apenas um espetáculo, mas sim uma forma de comunicação. Então se te perguntaram onde nasceu o jazz dance, você pode responder sem sombra de dúvidas, que foi na África e depois essa dança ganhou o mundo.

Considerada um movimento próprio de escravos negros das grandes plantações de algodão e tabaco, a cultura do jazz dance reflete influências de diversas índoles. Por um lado, se apreciavam ritmos e bailes africanos que duraram muito na consciência coletiva dos negros, por outro estavam às manifestações de origem religiosa, nas quais ritmos e etnias diferentes tinham em comum o mesmo ritual, como dançar para a chuva para pedir fecundidade, para celebrar nascimentos, e outros.

As danças serviam como suporte de narração de aventuras fabulosas e sucessos cotidianos próprios de sociedades que desconheciam o uso da escrita. Nesse sentido, esses movimentos duraram mais nos territórios americanos do que em outros países, que também sofreram uma invasão massiva de escravos – como as Antilhas e o Brasil – e que posteriormente aderiram a ritmos como: mambo, cha-cha-cha, conga, merengue e samba como vocês podem ver aqui:  

Esse vídeo sobre a história da dança negra na América nos ajuda e “ver” como eles se movimentavam:

Em outra parte, fruto do interesse dos brancos por liquidar os ritos e as formas folclóricas, os negros só tiveram recursos para expandir os seus costumes religiosos a partir do surgimento do cristianismo protestante dos brancos, que aos poucos, se converteu em expressões próprias e particulares. Essas cerimônias surgiram em forma de musicais, que foram muito importantes nos Estados Unidos, nos quais o canto acompanhava os movimentos rítmicos.

Paralelamente a isso, os negros criaram outras formas de manifestação como as blues ballads e as worksongs (músicas criadas no trabalho), que cantavam em coro sempre regidos por um mestre. Outra grande influência no gênero veio direto da música e da dança branca, mais propriamente da música popular de raiz europeia. Assim, pelo que parece claro, a influência se deu por via de imitação, as polcas, quadrilhas, marchas, danças irlandesas e bailes ingleses – como o clog – começaram a se misturar com danças autônomas para dar lugar ao que chamamos de jazz. “Foram os negros que entretinham seus amos, que elevaram as mudanças da dança africana transformando-a em jazz, mas foram os brancos que começaram a dançá-la primeiro em lugares abertos”. Esta citação foi retirada do livro Primeros Pasos en Jazz Dance. 1ª ed. Barcelona: Parramón Ediciones, 1987.

E já que falamos de dança no vídeo acima, vamos saber um pouco mais da história dessa música:

Desde o início do século 19, quando alguns grupos de bailarinos irlandeses começaram a atuar no país, a dança dos negros era interpretada por brancos, que muitas vezes pintavam suas faces para parodiar, cantar e dançar como tais, eram chamados Black Faces. Este cenário muda por completo com a emancipação dos escravos nos Estados Unidos – acordo firmado por Abraham Lincoln (1809-1865), no dia 1º de janeiro de 1863. A partir de então, a dança e o canto dos bailes dos escravos negros agora poderia sair de lugares restritos e ir aos públicos. Esta transformação teve uma influência decisiva na comédia musical, que nada mais era do que os primeiros passos do que hoje chamamos de jazz.

O jazz dance é híbrido, nascido de uma multiplicidade de formas de espetáculos anteriores, antigamente caracterizado por um grupo de intérpretes numeroso, no qual as bailarinas eram selecionadas pela beleza física e não pelos critérios técnicos de dança e canto. E quem pensa que demorou para que a comédia musical se consolida-se como forma de manifestação americana em meados do século 19, engana-se, porque ela já tinha uma forte ligação com os fatos contemporâneos da época e passou assim, a converter valores sociais e patrióticos, que eram facilmente compreendidos por um público que não tinha a língua inglesa como idioma dominante e, em muitos casos, incapazes de compreender o humor direto dos espetáculos de variedades e teatro convencionais. Vale aqui lembrar que os primeiros movimentos desta dança nos Estados Unidos foram feitos por ex-escravos africanos.

A partir de 1860, quando várias bandas de negros estavam criadas e a dança experimentava certo impulso, o jazz se consolidava em Nova Orleans, uma colônia francesa dos Estados Unidos, que deixava de ser um bairro marcado pela prostituição para ser um santuário de novos ritmos. Em outro lado, nos ambientes rurais, a dança negra adquiria formas diferentes e também importantes, como o surgimento de shows itinerantes, que eram criados, em sua maioria, por empresários brancos para companhias de bailarinos e cantores negros.

Aqui vale uma reflexão importante? Você sabe o que é JAM? Esse termo é muito usado pelo sapateado e pela dança contemporânea e relaciona-se a improvisação. Pois JAM significa Jazz After Midnight, ou seja, Jazz Depois da Meia-Noite. Os músicos de Nova Orleans tocavam em casas de shows um repertório fechado, escolhido pelo dono da casa até a meia-noite, depois desse horário eles podiam improvisar, fazer jazz.

Voltando aos shows: Como resultado do fenômeno desses shows, em 1910 surgiu o T.O.B.A (Theatre Owner´s Booking Association), um grupo de bailarinos negros, fundado por Sherman Dudley, que rodou o país de Chicago a Nova Orleans apresentando espetáculos de comédia musical, mas que como tantos outros grupos depois da crise de 1929 e com a chegada das películas musicais, enfraqueceu. Maior sorte teve outro grupo – talvez não mais importante que o T.O.B.A -, o The Whitman Sisters’s New Orleans Troubadours, que era somente formado por mulheres e que resistiu no cenário americano sobrevivendo por mais de 40 anos. “O grupo formado somente por mulheres brancas e muitos jovens, a maioria menor de idade, foi o que de melhor e de mais novo apareceu no cenário americano nesta década. Eram lindas e técnicas”, falam Marshall e Jean Stearns, no livro Jazz Dance – The Story of American Vernacular Dance. 1ª ed. New York: Da Capo Press, 1964, uma das melhores publicações do gênero.

Outros fatores também contribuíram para o crescimento do jazz dance como estilo da dança, entre eles destacam-se sua saída da África e aceitação pelo povo americano, a Primeira Guerra Mundial e a conseqüente mobilização de importantes setores da sociedade que provocaram êxodos de músicos e bailarinos de jazz das cidades industriais do norte como Chicago e Millwakee e também em Nova York, de um número massivo de negros do sul. Na época, os negros que foram recrutados para o exército levaram para a França seus ritmos e danças, o que provocou nos anos 20 certo furor pela música e pela dança americanas.

Neste período, o jazz foi para dentro dos clubes e teatros americanos que sofriam uma carência de trabalhos com coreografias e improvisações dos intérpretes. A dança negra começou a adaptar-se às características técnicas conhecidas, derivadas dos bailes africanos (já modificadas pelos brancos), caracterizando o jazz como uma dança que usa o isolamento de partes do corpo que se movem separadamente seguindo o mesmo ritmo – swing; movimentos rítmicos sincopados, uso da polirritmia – combinação do corpo em vários ritmos diferentes – e o uso correto do centro de gravidade do corpo que dança.

A década seguinte já foi marcada pela busca das raízes verdadeiras de pessoas negras escravizadas que conseguiu transformar uma rica bagagem cultural pouco conhecida em dança negra. Um nome marcante desta fase é o do africano Asadata Dafora (1890-1965), que nasceu em Freetown, Serra Leoa e foi coreógrafo de danças negras africanas. Sua companhia levava o nome de Austin Asadata Dafora Horton. Na década de 30, firmou-se como um coreógrafo de dança moderna africana. Após esse tempo, muitos bailarinos e coreógrafos passaram a estudar dança africana mais profundamente como uma influência da configuração da dança negra em outros lugares da América.

Veja a movimentação aqui:

A bailarina, escritora, coreógrafa e antropóloga Katherine Dunham (1910-1993) começou a coreografar em 1931. Seus princípios técnicos eram apoiados nos movimentos isolados de partes do corpo que caracterizam o swing do jazz dance.

A partir dela, a dança negra se converteu em algo muito mais livre, baseado na improvisação individual e em uma maior expressividade. Dunham levou ao mundo espetáculos que revolucionaram o estilo, criando assim, certa contemporaneidade ao que foi denominado modern jazz dance.

Dentro dessa tendência destaca-se Pearl Primus (1919-1994), considerada uma das melhores bailarinas negras dos anos 40. Aluna de Martha Graham (1893-1991) e Doris Humphrey  (1895-1958) possuía excelente nível técnico, estudava maneiras de investigação de fragmentos da história de seu povo e assim criava coreografias que retratavam o cotidiano, transformando-as em expressões artísticas. Personalidades como, por exemplo, Alvin Ailey, estreava seu primeiro trabalho (Blues Suíte), na linha do modern jazz dance, em 1958, época em que a dança dos antepassados ligada à música de Duke Ellington (1899-1974) revelou montagens coreográficas como The River, Revelations e musicais como, Roots of the Blues (1961) e Ariadne (1964).

Mas e aí? Como essa dança entra a Broadway? E quais as técnicas de jazz que foram criadas por personalidades que falamos até hoje como Bob Fosse, Jerome Robbins, Luigi, Gus Giordano, Mat Mattox, entre outros?

Acompanhe essa história aqui no blog da Só Dança Brasil.

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