Dança de salão: um movimento que cresce

9 minutos para ler

Nesse texto saiba quais os cinco ritmos mais dançados em nosso país e um pouco mais sobre cada um deles

Marcela Benvegnu | [email protected]

Forró, samba, zouk, bolero, sertanejo, valsa, salsa… Vai dizer que você nunca teve vontade de dançar? E se você acha que precisa de um parceiro ou de uma parceira para fazer dança de salão, nesse texto vai ver que não! Cada vez mais as escolas estão preparadas para poderem entrar nessa dança. Você já deve ter visto programas da TV brasileira que hoje tem como mote a dança de salão. O mais antigo Dança dos Famosos, do Domingão do Faustão, da Rede Globo, ao Dancing Brasil, da Rede Record, uma versão autorizada do Dancing with the Starts, que já é famoso no mundo.

Carolina Polezi: a entrevista da vez

A nossa conversa para esse texto foi a com  Carolina Polezi que tem mais de 19 anos de experiência com dança de salão. Doutoranda em Pedagogia e Filosofia da Dança pela Unicamp, ela é mestre pela USP e graduada pela UNICAMP. Ela desenvolve uma pesquisa sobre dança de salão com um novo método de ensino e prática chamado Condução Compartilhada. Ministrou aulas de dança na UNAM (Unividade Nacional Autônoma do México) e foi professora do Grupo de Dança de Salão da UNICAMP de 2009 a 2017. Atualmente coordena projetos sobre condução compartilhada, dança de salão queer e dança inclusiva.

Só Dança: Se você for nos explicar o que é a dança de salão. O que você diria?

Carolina Polezi: A dança de salão, apesar de ter se originado nas cortes francesas do século 15, nas Américas ganhou contornos populares e passou a ser uma manifestação cultural. Sempre teve um caráter social, ou seja, é praticada em grupos nos bailes como forma de socialização. Para que os pares possam se comunicar a principal técnica utilizada é a condução, que, associando a música e a corporeidade de cada ritmo, leva o outro a realizar os passos de dança. Dito de outra forma, a dança de salão é uma expressão cultural em formato de prática social dançada em pares com o abraço entrelaçado em que usamos a música, a corporeidade de cada ritmo e as várias técnicas para conduzir o(a) parceiro(a) a realizar os movimentos da dança de salão.

Como professora, quais os cinco principais ritmos que o público quer aprender?

Há uma grande diversidade de ritmos (modalidades) dentro da dança de salão, e justamente por ser uma expressão cultural e popular pode mudar de região para região, de país para país. Atualmente no Brasil os ritmos que estão em voga são principalmente: forró, samba, zouk, sertanejo e bolero.

collant-masculinoPowered by Rock Convert
Você poderia nos explicar um pouco mais de cada um deles? O que eles tem de singular?
FORRO

Certamente é o ritmo mais popular e dançado em todo o Brasil. Musicalmente surge na década de 1940 com Luiz Gonzaga que adiciona a zabumba e o triângulo à tradicional sanfona e cria o trio de forró. O grande sucesso de Luiz Gonzaga e a migração nordestina para todo o país disseminou esse gênero.

O passo básico é o popularmente conhecido “dois prá lá e dois pra cá” que ganhou muitos giros quando chegou no Sudeste.  Já no Centro-oeste ganhou movimentos de pés e quadril e no Norte se misturou a instrumentos eletrônicos se transformando no forró eletrônico. Por isso o forró é marcado por uma ampla diversidade nas formas de dançar em nosso país.

Confiram um forró premiado na Dança dos Famosos:

SAMBA

Surge no início do século 20 e em 1917 foi gravado o primeiro samba “Pelo Telefone”, uma composição de Ernesto dos Santos,  mais conhecido como Donga. O reduto do samba era a região de Cidade Nova no Rio de Janeiro onde se concentravam muitos migrantes baianos que influenciaram profundamente o surgimento samba. Inicialmente dançado em espaços sociais periféricos chamados de crioléus, depois se espalhou por vários lugares da cidade do Rio de Janeiro até se constituírem as gafieiras e assim ganhar seu nome que perdura até hoje: samba de gafieira. A malandragem permeia os movimentos da gafieira que com bom humor e improviso tenta trazer a síncope do samba para a dança em movimentos rápidos de pernas e tronco mais estáveis.

Olha um samba de gafieira passando pela sua timeline:

ZOUK

É um ritmo caribenho que entra no país nos anos 1990 pela proximidade com a região Norte. Nessa região, ele ganha influência da lambada, que nesse momento fazia grande sucesso e que posteriormente perdeu força. A medida que esse ritmo foi descendo para as regiões Sudeste e Sul ganha também influência do hip hop. Hoje o zouk é uma dança marcada pela sensualidade e movimentações onduladas, mas que eventualmente traz o corpo explosivo e fragmentado do hip hop. Essa dança chama a atenção pelos movimentos torácicos e de cervical e os amplos cambrés (que na terminologia da dança clássica são movimentos de movimentação do tronco para frente, para o lado e para trás).

No Dancing Brasil, o zouk:

SERTANEJO

O grande sucesso das músicas chega na dança de salão e algumas pessoas passaram a utilizar a base da bachata, no sertanejo, por perceberam que ambas tinham compassos quaternários para dançar. Daí em diante esse ritmo passou a se transformar recebendo influências de zouk, do forró e de outros ritmos latinos. Atualmente se divide em sertanejo universitário e sertanejo vanera, mas ambos são marcados por movimentos rápidos e energéticos, com presença de muitos giros, cambré e até mesmo pegadas.

 Aqui tem até uma aula de sertanejo universitário para você espiar:

BOLERO

Um ritmo originalmente cubano, e o nosso “jeitinho brasileiro” deu ao estilo uma forma de dançar diferente no Brasil. Fez muito sucesso nos anos 1950 e 1960 e até hoje é dançado por um público de todas as idades. Seus movimentos lentos e letras românticas tornam essa dança muito acessível a todos os públicos. É marcado por movimentos suaves e o abraço mantém uma distância um pouco maior de um corpo ao outro, que as outras modalidades.

Carlinhos de Jesus, referência brasileira da dança de salão, mostra o “bolero”:

As pessoas têm na cabeça que precisam de um par para poder dançar. Isso procede?

Com certeza não. Apesar de ser uma dança em par sua grande característica é ser uma dança social, então é muito divertido poder conhecer outras pessoas nos bailes e salas de aula. Nas escolas existem monitoras e monitores que ajudam a equalizar a combinação de pares e por isso não é necessário estar acompanhado para começar essa atividade.

Você criou um conceito chamado de condução compartilhada para a dança de salão. Pode nos explicar?

A condução compartilhada questiona os papéis de gênero na dança de salão. Isso porque tradicionalmente cabe ao homem conduzir os passos de dança e à mulher somente ser conduzida. Então os passos, a musicalidade e a expressão artística de uma dança era, determinada majoritariamente pelo homem. A condução compartilhada permite que ambos possam conduzir e ser conduzidos simultaneamente proporcionando assim uma dança muito mais criativa e sensível.

Quando duas pessoas entram para conduzir, as possibilidades crescem exponencialmente e a atenção e sensibilidade de escuta para o outro também e esse encontro proporciona uma dança mais interessante e envolvente. Esse conceito foi criado por mim em 2015 quando ofereci junto ao grupo de Dança de Salão da Unicamp o I Laboratório de Condução Compartilhada em que pessoas, assim como eu, buscavam ampliar as possibilidades na dança de salão. Esse primeiro laboratório foi gratuito e teve 60 pessoas inscritas, marcando o início da história da Condução Compartilhada que hoje já ganhou grande difusão.

E como você une isso a pedagogia da dança?

A Condução Compartilhada não é só uma outra forma de dançar, mas também de ensinar. Em minhas aulas mudei completamente a linguagem e não divido a dança entre homens e mulheres, damas e cavalheiros, a ideia é que possamos nos divertir e expressar juntos com qualquer pessoa. Os movimentos também não são divididos entre aquele que conduz e aquele que é conduzido, mas pensamos a partir do improviso, como criar junto com seu parceiro(a).

Portanto, os passos não são formatados, fechados, ao contrário, ele dá grande espaço para improviso e criação. A Condução Compartilhada não é a inversão de papéis ou a alternância de condução, mas sim um estado em que o corpo condutor- conduzido. Minhas aulas são marcadas pela autonomia dos alunos e eu construo isso a partir de exercícios e práticas que focam na técnica e nos fundamentos de cada ritmo de dança de salão.

O que você acha desses programas que hoje focam a dança de salão como o Dança dos Famosos, o Dancing Brasil? Eles ajudam a popularizar o estilo?

Pessoalmente eu acho muito importante a existência desses programas, pois além de colocar em evidência a dança de salão, mostrar que essa prática é acessível a todo mundo e que em poucas aulas já é possível dançar e se divertir.

Powered by Rock Convert
sapatilha-de-pontaPowered by Rock Convert
Você também pode gostar

Deixe uma resposta

This site is protected by reCAPTCHA and the Google Privacy Policy and Terms of Service apply.

-